Thiago sabe de cor todos os países do mundo e suas capitais, assim como os números primos até 7.507. Luciana gosta do estado de Massachussets, mas não entende nada de relações humanas. Maria Amélia adora listas, padrões e verdades absolutas. Aline odeia amarelo e marrom e, acima de tudo, odeia ser tocada por alguém. Todos esses atores mergulham na ficção para emprestar seus corpos e emoções a uma outra vida e, ao confundir realidade e ficção, nos contam a história de um portador da Síndrome de Asperger.
Criado entre professores especializados e pais que definitivamente não sabem lidar com suas necessidades especiais, o protagonista da peça nunca vai muito além de seu próprio mundo, não consegue mentir nem entende metáforas ou piadas. É também incapaz de interpretar a simples expressão facial de qualquer pessoa. O próprio personagem define seu cérebro como um computador com grande memória fotográfica, capaz de resolver complicadas equações matemáticas, mas com nenhuma habilidade para lidar com emoções ou pessoas.
Um dia, esses atores encontram o cachorro da vizinha morto no jardim. São acusados de assassinato e presos. Depois de uma noite na cadeia, decidem descobrir quem matou o animal, montando “uma peça de mistério e assassinato”.
A contradição entre seus problemas de comunicação e a metalinguagem proposta criam um jogo cênico lúdico, em que o mergulho na matemática é um caminho para que se descubra muito mais do que se procurava.
O ponto de partida para a criação do espetáculo “Cachorro Morto” foi a relação entre a matemática e outras formas de comportamento e cognição. Este é o espetáculo fundador de um grupo interessado em investigar diferentes formas de comportamento, pensamento, compreensão e sensação do mundo como matéria-prima artística.
O espetáculo conta a história de um autista que sabe tudo sobre matemáticae quase nada sobre seres humanos. Ao multiplicar esse protagonista pelos corpos dos atores, a cena cria uma narrativa envolvente que não se limita a fronteiras de qualquer natureza. Através de jogos matemáticos, a peça questiona nossa forma de pensar e nossa incansável compulsão por “entender”. Como se estivéssemos dentro da cabeça do protagonista, fragmentado em cinco versões, somos levados a acompanhar as metamorfoses dos atores por um mundo de construções impossíveis, explorações do infinito, padrões e fórmulas matemáticas.
Livremente inspirado em “The Curious Incident of the Dog in the Night-time”, “Nascido num Dia Azul”, de Daniel Tammet e “A Música dos Números Primos”, de Marcus du Sautoy
Direção e Dramaturgia:
Leonardo Moreira
Elenco:
Aline Filócomo
Fernanda Stefanski
Luciana Paes
Mariah Amélia Farah
Thiago Amaral
Joaquim Lino
Concepção de Cenário:
Leonardo Moreira
Iluminação:
Marisa Bentivegna
Figurinos:
Willy
Trilha Sonora:
Gustavo Borrmann
Apoio à Pesquisa:
Marli Bonamini Marques e equipe da AMA (Associação de Amigos do Autista);
Raquel Paganelli (Mais Diferenças).